Muitas vidas em uma

Comecei o texto no rascunho do WordPress, perdi, recomeço. Faz parte justamente do tema sobre o qual quero escrever. Deitada para dormir é comum que me venham pensamentos diversos, que já me deixaram agitada e ansiosa e atrapalharam muito meu sono e descanso. Hoje, depois de algum trabalho, esforço e estudo sobre eu mesma, meu corpo, seu funcionamento, meditação e psicologia, entre outras técnicas em busca de viver melhor, aprendi a lidar com a “avalanche”. Simplesmente relaxo, acolho e aceito. Até agradeço. Afinal, que seria de mim, profissional que precisa ser criativa, se não fossem as inspirações?

E seleciono. Não é porque o pensamento veio que preciso me manter atenta a ele. Então escolho aqueles que quero cultivar, que me relaxarão e ajudarão a dormir melhor. Sim, simples assim. É claro que, como tudo na vida, requer prática e fica melhor com o tempo. Mas asseguro: vale a pena o investimento. Cada segundo dedicado.

Então, me percebi pensando sobre as muitas vidas que levamos, porque imagino (e sei, na verdade) que não sou a única que leva em si múltiplas vidas. Somos mulheres, mães, profissionais, ativistas, voluntárias, cidadãs, amigas, colegas de atividades, companheiras de lutas… Muitas! Todas, num mesmo corpo, que carrega histórias, experiências, alegrias, tristezas, lições, dúvidas.

Então, é natural que surja conflito. Como equilibrar tantas vontades, anseios, desejos, aspirações? Quem priorizar, qual escolher, a quem dar atenção? Queremos ser, viver e fazer tudo e todas. Mas não dá. Não ao mesmo tempo. Somos mulheres maravilhas, mas ainda mais multifacetadas que na ficção. Só que os superpoderes não dão conta de nós mesmas…

E a tendência pode ser o inverso: paralisadas, não sabermos o que fazer primeiro, a que dedicar nosso foco e energia. Uma confusão que gera desgaste emocional e físico, além da famigerada sensação de não dar conta da própria vida.

Qual o mistério do equilíbrio? Você também tem a sensação de que vivem dentro de você muitas outras “vocês”? Como lida com elas?

Dentro de mim há uma Maria Carolina que vem aprendendo através da insistência, persistência, diálogo, busca incessante. Pedindo e recebendo ajuda. Aceitando seus limites e ampliando a consciência sobre si mesma. Mas é um aprendizado que precisa a cada dia ser renovado, atualizado, revisto.

*Percebi que o início deste texto ficou uma boa orientação para quem deseja aprender a meditar. Muitas pessoas, ao me ouvir dizer que tenho essa prática, afirmam o que eu mesma falava: que é impossível “não pensar em nada”, que sequer tentam porque sabem que não vão conseguir, ou que já tentaram, em vão. Então, decidi que também escreverei mais a respeito. Vamos tentar!

A meditação é justamente uma forma de ouvir a “voz interior”, as nossas verdades às quais nem nós mesmas temos acesso, em muitos casos, porque não paramos para nos ouvir. Damos atenção a tantas pessoas, tantas fontes de informação, julgamentos, valores… E os nossos? O que é fundamental para a nossa vida? O que compõe a nossa essência? Vale a pena conhecer mais a nós mesmas em busca de uma vida melhor. Independente de qual de nós decida viver, hoje.

Tristeza

Viver é um desafio. Para mim, para você, para todos. Para o portador de uma doença chamada depressão, a dor e a tristeza são companheiros constantes, diários, rotineiros. Não sei quem sou e quem são eles. Em que ponto acaba a sensibilidade extrema da Maria Carolina e começa a dor depressiva. Somos indissociáveis.

Relutei muito a escrever em público a respeito, mas a ideia sempre me rondou. Porque sei que do que mais precisamos é da cura. E, se ela não chega, ajuda muito lidar com pessoas que tenham o mínimo de consciência sobre o que se passa dentro de nós. Não é frescura, não é loucura, não é exagero. Aliás, exagerada é a nossa força para lutar e sobreviver.

Tenho acompanhado com certa felicidade (sim, depressivos sentem alegria, felicidade, contentamento – também) a evolução da nossa sociedade, dos meios de comunicação jornalísticos e não jornalísticos, e até da própria medicina na maneira como lida com os pacientes de saúde mental. E a depressão é só mais uma, entre muitas doenças mentais. O que não torna o depressivo um maluco, doido, louco, inconsciente; embora a dor da alma, como aprendi a diagnosticar espiritualmente o que sinto, seja severa e enlouquecedora, muitas vezes. Manter a sanidade diante dela é desafiador, de fato.

Na verdade, acho que procrastinei. Sempre pensando em quem está do outro lado. Para o bem e para o mal. Porém a possibilidade de apoiar alguém a lidar com a doença, seja a própria ou de alguém querido, me motiva a me expor. Assim como falo de outras questões que não são exatamente motivo de orgulho, mas que hoje sei que não são exclusivas. E, ainda que sejam, a ideia de ajudar pessoas a lidar com as suas “exclusividades” me inspira a seguir com a insana vontade de escrever para desconhecidos. Para ninguém, para quem quer que seja.

Vergonha (felizmente!) nunca foi algo que eu sentisse, realmente. Não tenho vergonha em assumir que tenho depressão. Eu trato, vou ao médico, tomo os medicamentos prescritos, faço terapia, participo de tudo o que me aparece que percebo que possa me ajudar a viver melhor. Escrever sem dúvida é das melhores ferramentas que já conheci, e das que uso há mais tempo. E está intimamente ligada a outra atividade que me ajuda muito: solidariedade. Voluntariado, altruísmo. Olhar para o outro e estender a mão, como for. E, sinceramente, vejo a escrita e a exposição pessoal assim, ainda bem.

Facilitado pelas tecnologias de comunicação, pela democratização do acesso à internet e por abertura de mentes como a minha, a sua e tantas outras, antes blindadas (os maiores preconceitos de que sou vítima são os meus), o compartilhamento de experiências pessoais, seja em redes sociais, em salas de espera nos consultórios ou na fila do pão têm salvado vidas. E por isso sou entusiasta deste movimento.

Mas nem sempre foi assim. Houve o tempo sombrio da ignorância, do desconhecimento, do não reconhecimento. De não aceitar ajuda, não saber do que sofria, não buscar apoio profissional nem falar abertamente com ninguém. Se ainda não estou curada, como posso achar que estou melhor? Não só acho, tenho certeza absoluta.

Só eu sei os sintomas dos quais me livrei, além dos óbvios. Estou chegando ao fim deste texto (concluir todos os que escrevo é uma luta interna, porque a maior parte de mim quer continuar a escrever, mais, sempre, e a outra, coitada, insiste em me lembrar de que tenho outros compromissos – textuais, inclusive) sem qualquer lágrima nos olhos. Por dentro, choro. Estou triste, desanimada, frustrada.

Tenho plena consciência dos diversos motivos que tenho para agradecer. e os cultivo diariamente; mas não tenho controle. Afinal, ninguém, em sã consciência ou não, escolheria sofrer tendo a opção de ser feliz, alegre e animado, sem problemas, né?

Se ainda acha tudo isso uma grande bobagem, conversa de quem quer chamar atenção, aí temos outras alternativas: religião, compaixão, ou quem sabe até um bom médico psiquiatra ou um psicólogo especializado em egoísmo.

Repense, sempre é tempo! Seja feliz. E ajude outra pessoa a ser também ; )

Dolorosa identificação

Sobre o episódio entre Jean Wyllys e Bolsonaros com sua corja no domingo de votação do impeachment na Câmara, minha opinião.

Fiz questão de postar como comentário no perfil do deputado no Facebook para manifestar minha solidariedade a quem, como eu, sabe o que é ser vítima e viver de superação diária. Sentimo-nos – e somos, de fato – sobreviventes.

Sobrevivemos aos covardes que nos massacram moralmente, fisicamente, mentalmente, emocionalmente. Somos vítimas de uma maioria cruel que conta com dois parceiros indispensáveis para agirem como agem: a impunidade, que lhes confere a certeza de que podem agir como quiserem e nunca nada lhes será cobrado; e a omissão – de famílias, responsáveis, autoridades, instituições.

Além de (e apesar de) ter sido um grande circo dos horrores, o episódio na votação do impeachment na Câmara dos Deputados, em Brasília, 17 de abril, deve ficar marcado em nossas memórias como um convite à reflexão. De que lado estamos? Que ideias (e atos) defendemos? Ustras, Bolsonaros, Temers, Cunhas? Ditadores, torturadores, assediadores, violentadores, que não respeitam sequer a própria postura no ambiente de “trabalho”?

Ou vozes discordantes, independetemente de quais ideologias representem? O caminho da democracia, na qual todos possam verdadeiramente opinar em praça pública sem medo das reações violentas que terão de enfrentar?

Pensemos.

Há muito a ser dito – e vencido

7 de março: véspera do Dia Internacional da Mulher. Por que pensamos na data com tanta antecedência? Porque, muito mais que um dia de celebração e festa, para nós, mulheres, é dia de luta. Assim como todos os demais dias do ano.

Listar nossas agruras diárias seria impossível. Afinal, cada uma de nós sabe o fardo de ser como é. Mas todas nós somos a melhor versão de si mesmas, não podemos esquecer. A mulher idealizada na capa da revista, na foto em destaque no site, protagonizando a novela da TV não é apenas inatingível: é irreal, pois que não existe.

É fantasia, ilusão, um protótipo de sonhos e idealizações alheias. Não as minhas, as suas, as nossas. Mas aquelas que nos impuseram séculos – milhares de anos, aliás – atrás e que ainda hoje se escondem sob um manto hipócrita de igualdade demagógica que de fato nunca existiu.

Muitas morreram por nossos atuais “direitos”, que nunca exercemos de maneira plena. Somos violentadas e mortas diariamente para manter suas fachadas. Nunca fomos livres de verdade. Nem para sentar como quisermos (lembro bem da bronca homérica que levei da família materna pela minha falta de modos quando criança, há muuuuuitos anos), nem para nos vestir como desejarmos (quem de nós não escolhe a roupa de acordo com o nível de segurança do trajeto e destino?), muito menos para ser quem somos.

Mulheres fortes e inteligentes, que ousam ter opiniões e expressá-las, são negligenciadas, excluídas. Forçadas a permanecer no limbo dos espaços de decisão da sociedade. Vejamos nosso Congresso Nacional. Temos uma presidente (ou presidenta) mulher, e aí? Quais políticas públicas femininas avançaram em seus mandatos? Quem é maioria nas votações? Quem escolheu legislar sobre aborto, relacionamentos e outros tantos temas que nos dizem respeito, afetando diretamente nossa saúde e nossos corpos?

Quem aqui é de fato livre? O preço para tanto continua alto, e ousar seguir nesta vida de aventuras, de mulher que trabalha, estuda, escreve, cuida da família, do lar e de si mesma, é arriscado. Para a saúde, para a sanidade e até mesmo para a nossa integridade física. Mas insistimos em perseverar. E queremos mais. Não vamos desistir.

A todos os homens que reconhecem o valor de uma mulher e as respeitam em seu cotidiano, meus parabéns. Vocês são exemplos de que nossa espécie pode evoluir, embora em minoria. A vocês que acham que o melhor que podem fazer neste 8 de março é dar rosas à companheira… Reflita, enquanto há tempo. Ela merece bem mais, e perceber isso será bom para você.

Ninguém quer morrer

Dead Tree
Um cenário que não queremos mas para o qual contribuímos

O post de hoje era bem menos tenso. Pretendia abordar (e no fundo reclamar) da escolha do cantor Roberto Carlos para apresentação em cerimônia dos Jogos Paralímpicos. Vi a notícia nesta quarta (2) num jornal exposto na banca e me arrependi de ter lido, fato por si só inusitado para mim. Argumentei comigo, questionei: “Por quê?!” e pensei em compartilhar o sentimento e as elucubrações advindas.

Até que na manhã desta quinta (3) li o texto “Aquecimento global afeta produção de alimentos e pode causar 500 mil mortes”, no site Ciclo Vivo, que não me lembro de já conhecer e pretendo ver outras vezes. Não recordo como a notícia chegou a mim, talvez um compartilhamento em rede social ou email. Esqueci diante do assombro que me tomou.

Pode-se imaginar (como eu imaginei) qual seria a razão do espanto. Afinal, notícias catastróficas sobre o fim do mundo e a extinção da humanidade não são exatamente inéditas.

O estudo britânico, publicado no mesmo dia em revista especializada, é atual, e a divulgação igualmente, porém talvez o “click” humano tenha chegado a mim de forma mais severa. Caiu mais um pouco da ficha. Não posso, de fato, me dizer surpresa, embora tenha assim me sentido.

A imagem que ilustra a página do texto certamente contribuiu. Afinal, não se trata de um gráfico cheio de dados frios ou simulação virtual de como estará a Terra daqui a anos. Trata-se do “simples” retrato de um SER HUMANO. Sozinho diante de escombros do que seria uma casa mais que simples, certamente o que lhe resta como moradia; em meio a uma terra aparentemente devastada pela seca. O verde só é visto com esforço, bem ao fundo.

E ele ali, agachado, posando para o fotógrafo (que farei questão de pesquisar, saber mais a respeito e divulgar seu trabalho). Alguns poucos pertences expostos de forma aleatória. Um rosto resignado. Simpático, até. Tanto que me identifiquei com seu quase sorriso e me senti próxima dele. A empatia foi forte, mesmo para alguém acostumada a sofrer dela – e que gosta de ser capaz disso. Como nós parecemos estar diante da iminência do nosso fim: resignados. Sim, nosso, porque são fatos o que os estudos mostram. Não especulações de lunáticos ambientalistas. Mas nossa determinante realidade.

A impressão que tenho diante da inércia humana é de que nós nos abandonamos. Desistimos de viver. E isso, sem dúvida, não é o que desejamos, na verdade. Então, por que tamanho descaso? Nossa saúde já sofre com a poluição das cidades, os alimentos a cada dia ficam mais caros. Não nos banhamos nas mesmas águas de nossas infâncias.

E nós? O que EU faço? A responsabilidade é nossa. Não adianta os melhores cientistas produzirem as mais completas pesquisas se estas informações não alcançarem cada um deste planeta. Mais: se não despertarmos nossas consciências o suficientemente bastante para que elas evoquem ações.

Não quero parecer injusta, logo é preciso reconhecer que felizmente há iniciativas solitárias e coletivas buscando fazer diferença neste cenário. Este singelo blog é uma delas, a propósito. Contudo precisamos de divulgação, adesão, democratização – AMO essa palavra! Justamente pelo que ela representa: que seja o povo, o coletivo. Assim como a sobrevida. Afinal, TODOS merecemos e queremos viver. Com qualidade, saúde, dignidade. Todavia para tanto precisamos admitir: é necessário mais respeito ao nosso lar.

Amor incondicional

Acordei com o toque do System Of A Down às cinco. Consegui levantar, vitória! Fui ao banheiro, bebi água, tomei remédios. Fui meditar. Porque só assim para meu dia começar melhor e eu suportar com serenidade o que está por vir. Alonguei, fiz uns (poucos) exercícios e segui minha rotina doméstica: cozinha, mesa, louça, café da manhã. Roupas na máquina. Oração (!).

5h45: Acordar a filha. Não levanta, mal reage. Dou mais alguns minutos de trégua (estrategicamente calculados). Continuo os afazeres. Volto a chamá-la. Ela responde com o princípio de um espreguiçar preguiçoso. Sei que é o prenúncio de que levantará. Sigo nas tarefas do lar e atribuições maternas. Ela começa a se vestir e percebe que terá de ir de calça jeans. Não encontra o short da escola. Mobiliza a casa: todos à procura do short do uniforme,  calça jeans não pode.

Short encontrado, num local onde ela afirmava já ter procurado. Antes, temia não poder entrar sem o uniforme completo. Agora, afirma estar com frio e não quer mais tirar a calça. Afirmo que terá de ir com o short. Sei que frio não é algo que sinta por muito tempo,logo irá despertar e suar. No clima do Rio,mesmo em dias nublados até eu consigo suar. Fica com raiva. Pega o ferro de passar porque acha o short amassado. Com receio de que se queime com o ferro na mão já ao começar do dia, sonolenta, pego para mim.

A tábua, coberta de material escolar – e roupas a serem passadas, confesso –, precisa ser esvaziada. Em parte, ao menos. Coloco um caderno sobre a cama sem cuidado. Pronto: bate os pés, joga as coisas com força, faz barulhos desnecessários. Chamo atenção, lembro que tem pessoas dormindo. Mais raiva. Mal-estar. Pré-adolescência, penso. Seja paciente. A mochila, que sugeri que fosse arrumada ontem à noite, só começa a ser arrumada a gora, depois das seis da manhã. Deve ser a sede de adrenalina tomando conta.

Mas e o café?! Separo uma fruta e um biscoito para a merenda o lanche. Não gosta do biscoito (eu sabia).Troco por um que gosta. Saímos. Já na porta do elevador, o primeiro sinal de paz: abre a porta para mim. Na escada, oferece ajuda. Na calçada, inicia o diálogo:

– Eu amo você.

– Eu também te amo.

– Desculpa.

– Por quê?

– Por tudo.

Eu desculpo. Eu converso, eu ouço, eu explico, eu suspiro, respiro fundo, conto o infinito. Eu choro, eu sofro, eu canto, eu adoro. Compreendo, afago e dou bronca. Reclamo, desabafo, lembro, instruo, oriento. Amo incondicionalmente.

Mãe.